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Jornal de Pomerode

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Um ponto de vista diferenciado

Engenheiro florestal apresenta contraponto ao corte da árvore Espatódea em Pomerode

7bb330fe99df458ff10d316636871e97.jpg Foto: Raphael Carrasco / Jornal de Pomerode

Na edição de número 1231 do Jornal de Pomerode, abordamos a polêmica do corte da árvore Espatódea (Spathodea Campanulata), muito presente na cidade, mas que estaria provocando a morte de abelhas e beija-flores na cidade. Porém, fomos procurados por Engenheiros Florestais, em nossas redes sociais, que apresentaram um contraponto à ideia, afirmando que não seria a melhor solução cortar as árvores, sem um estudo mais detalhado.

Para entender o que poderia ser feito e porque são necessários estudos mais aprofundados sobre a situação, conversamos com o engenheiro florestal Ney Marcos Rocha, que explicou um pouco mais sobre a situação das Espatódeas.

De acordo com o especialista, ao buscar artigos científicos que poderiam esclarecer qual é a substância da Espatódea que seria letal para as abelhas, os resultados encontrados ainda são poucos. 

“Em uma tese de doutorado do ano de 2005, realizada por Adriana Flach, em Campinas, onde ela estuda os componentes do néctar da Espatódea, a pesquisadora não identifica a substância que causa a mortandade dos insetos que visitam as flores e conclui que: ‘todas as soluções testadas não se revelaram tóxicas para uma série de insetos testados’. Já o doutor Volker Bithrich sugere que os insetos morrem afogados na tentativa de ‘roubar’ o néctar, pois as paredes das flores são escorregadias, o que pode ser uma estratégia da flor contra os ladrões, pois a mesma é polinizada por pássaros”, enumera Rocha.

O engenheiro florestal comenta que observações feitas por autores da área, como Nogueira-Neto, Trigo & Santos e Portugal-Araújo provam o impacto da flor de Espatódea para abelhas e outros insetos. Porém, há estudos utilizando extratos do néctar da flor e seu impacto nas espécies de abelha africana. Os resultados obtidos com cinco frações não mostraram efeito tóxico. O pólen desta espécie, testado na concentração de 5%, também não mostrou efeito tóxico. 

“Ou seja, as abelhas africanas não são afetadas por esta espécie e artigos científicos relatam a Espatódea como sendo uma importante fonte de alimento apícula em determinadas épocas do ano. A Espatódea também é utilizada na medicina popular no tratamento de edemas, desinteria, úlceras, gonorreia, diarreia e como antídoto, por diversos autores”, afirma. 

 

Benefícios para o ambiente

Rocha pondera que é necessário lembrar que indivíduos arbóreos (árvores e plantas), como um todo, possuem diversos benefícios para os seres humanos e, até mesmo, para a natureza. Entre eles, estão a questão absorver o gás carbônico e liberar oxigênio devido à fotossíntese; sequestram e armazenam carbono; são abrigos para a fauna e para a flora, por exemplo, para bromélias, orquídeas, lianas, entre outras; aumentam a umidade do ar, bem como, reduzem a temperatura do ambiente ao seu redor; sombreamento, redução dos ruídos causados pelo trânsito e/ou obras; além do embelezamento do local.

Por isso, o corte em massa da árvore Espatódea pode trazer problemas para a cidade, se feito deliberadamente. “Quando se acaba com um indivíduo arbóreo adulto, momentaneamente se gera um desequilíbrio local, pois existem diversos outros organismos e micro-organismos se beneficiando deste indivíduo, seja direta ou indiretamente, porém, a natureza possui uma enorme força de adaptação e, em pouco tempo, o equilíbrio é reestabelecido. A questão está voltada para a estética, porém, mais precisamente aos benefícios citados anteriormente”, ressalta o engenheiro florestal.

Ele destaca que uma solução que evitaria os cortes das árvores seria disponibilizar mais opções de alimentos apícolas, ou seja, comida para as abelhas. “Abelhas são seres extremamente sociais e inteligentes, ou seja, se existe uma fonte de alimento mais próxima e abundante, não irão buscar pólen em locais mais distantes ou em indivíduos que não sejam polinizados por abelhas. Seria mesmo a Espatódea uma vilã? Ou as abelhas necessitadas e/ou intrometidas?”.

Por fim, o especialista afirma que é necessário que as autoridades públicas levem em conta, também, os benefícios da planta. “Deixo aqui minha admiração pelas autoridades públicas, por estarem buscando alternativas para ajudarem as abelhas. Não estou me opondo às atividades que pretendem realizar, mas gostaria de deixar um outro ponto de vista, que, atualmente, não está sendo enxergado, quanto aos benefícios de uma árvore tão esplendorosa como a Espatódea. A busca por profissionais como Engenheiros Florestais, Zootecnistas, Biólogos e Agrônomos para a criação de Leis referentes ao Meio Ambiente é de suma importância, tanto para o desenvolvimento sustentável, quanto para a boa gestão das políticas públicas”, finaliza.



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