Jornal de Pomerode

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Um coração aeroterrestre

Médico que atua em Pomerode conta como foi a sua experiência como paraquedista militar, na semana em que se comemorou o Dia que homenageia a classe. Omar Manne, de 55 anos, teve seu primeiro contato com o Exército Brasileiro em 1990, mas a história começou quatro anos antes

0b109ac770c2fe84e53804f2652b9763.jpg Foto: -Omar Manne, antes do primeiro salto, em 1991Arquivo Pessoal

No dia 22 de outubro, é comemorado o Dia do Paraquedista e, dentro desta classe, existe um grupo de elite para o qual o paraquedismo é muito mais do que lazer ou esporte: é uma missão. A Brigada de Paraquedismo do Exército tem sede no Rio de Janeiro e, um médico que hoje reside em Pomerode, foi um dos integrantes deste grupo de elite. Ele conta como é a vida de um paraquedista militar.

Omar Manne, de 55 anos, teve seu primeiro contato com o Exército Brasileiro em 1990, mas a história começou quatro anos antes, quando, após se formar em Medicina e concluir os dois anos de residência em clínica médica, surgiu o desejo de integrar o Exército. Então, em 90, prestou concurso e ingressou na Escola de Saúde do Exército.

“Já na Escola de Saúde, surgiu a oportunidade de fazer a prova para ver se eu conseguia entrar no curso de Paraquedista de Combate, algo que se tornou meu desejo. Era uma prova física, então, treinei bastante e, a duras penas, consegui passar na prova para fazer o curso de dois meses para a Brigada”, relembra o médico.

Durante o curso, segundo Manne, os participantes são submetidos a um treinamento intenso, tanto físico como técnico, para poderem se formar como Paraquedistas de Combate. Ao fim do curso, os aspirantes precisam, ainda, fazer cinco saltos de graduação, nos quais, o médico foi aprovado, na época.

O veterano da Brigada de Paraquedismo Militar explica que o grupo não tinha uma rotina fixa, pois um dia era sempre diferente do outro. O treinamento era sempre simulando situações reais, até mesmo em constante contato com o perigo. “Nos saltos, acidentes podem acontecer e, se acontecem, são graves. Então, sempre precisava existir uma equipe médica em solo. Como eu era médico paraquedista, eu saltava junto”, relata.

A Brigada de Paraquedismo Militar era, muitas vezes, empregada em ações reais e operações. Por exemplo, em ações contra o tráfico realizadas em morros do Rio de Janeiro, inclusive em anos nos quais Omar Manne fazia parte da Brigada, em 1994 e 1995, e em conjunto com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).

Ao longo dos anos em que fez parte da Brigada de Paraquedismo, Manne comenta que foram vários aprendizados, mas, principalmente, de senso de patriotismo e a criação de um laço de fraternidade entre os integrantes do grupo. “É muito difícil de explicar este sentimento e era mais difícil ainda ver em outras unidades essa união fraterna que nós tínhamos. Era especial”, afirma.

O veterano comenta, também, sobre outros aprendizados e resume sua trajetória no paraquedismo militar em uma palavra: determinação. “Lá aprendemos a não deixar que os obstáculos, por pior que fossem, te vencerem e eu aprendi da maneira mais dura. Muitos me perguntavam, por exemplo, se eu não sentia medo na época em que ia fazer o meu primeiro salto, mas eu respondia que não, por tudo o que passei nos treinamentos. Era, para mim, a coroação do sacrifício pelo qual passei e é uma sensação maravilhosa, não só o salto em si, porque no paraquedismo militar é muito diferente”, ressalta o médico.

No âmbito militar, o salto é feito, simultaneamente por 30 ou 40 pessoas, e é necessário ter um cuidado extremo para que não haja entrelaçamento dos paraquedas, que é uma situação muito perigosa. “Outra diferença para o paraquedismo civil é que a missão deles termina quando alcançam o solo. A nossa começava quando pousávamos, com tarefas bem diferentes das executadas pelas tropas normais”, revela.

E são justamente estas missões que ficaram marcadas na memória de Manne, principalmente as operações reais nos morros que eram dominados pelo narcotráfico no Rio de Janeiro. “Tínhamos que subir os morros, às vezes, pelas grotas dos lixões, de madrugada, ou éramos lançados de helicópteros no topo do morro. O legal era que todos participavam da mesma forma, independentemente da posição hierárquica. Todos participavam, expostos aos mesmos riscos, ajudando-se mutuamente, fazendo a segurança uns dos outros”, relembra o veterano.

O médico revela que saiu da Brigada no ano de 1995 e, só conseguiu retornar ao local e rever antigos colegas em 2014. “Foi muito bom estar entre irmãos novamente. Irmãos, sim, é como nos consideramos. Foi uma emoção muito grande e difícil de descrever, com um sentimento fraterno, uma sensação clara de estar entre irmãos e de nunca ter saído, sentimento de estar com a sua família”, destaca.

O contato de Manne com os “irmãos” ficou mais forte a partir de 2014, já que conseguiu fazer contato com associações de veteranos aqui do sul. Sempre que pode, visita os veteranos no Paraná e no Rio Grande do Sul, e garante que é uma sensação diferente e agradável. Inclusive, no dia 24 de novembro, quando será comemorado o aniversário da Brigada de Paraquedismo Militar, o médico estará presente, para desfilar junto de seus companheiros, o que, segundo ele, representa alegria e honra.

 



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Créditos: Isadora Brehmer/Jornal de Pomerode Arquivo Pessoal
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