Jornal de Pomerode

Edição Impressa



Um ato de amor e coragem, sem reservas

Casais que realizaram uma adoção casada, em Pomerode, relatam as alegrias e desafios deste ato tão nobre

f685ce73c56161f2aa1b4b431128052d.jpg Foto: Isadora Brehmer/JP

Quem é mãe ou pai certamente sabe que o amor pelo filho surge e floresce antes até de seu nascimento. E mesmo quando essa “gestação” não acontece da maneira tradicional, o amor dos pais pelos seus filhos tem a mesma intensidade.

A maternidade sempre foi um sonho na vida do casal Adriana e Fábio Santana Santos. Juntos há mais de 20 anos, realizaram o desejo de uma maneira diferente. Depois de duas tentativas de engravidar que, infelizmente, não deram certo, Adriana e Fábio decidiram adotar e definiram um perfil aberto, aceitando uma criança que tivesse de dois a sete anos, também que poderia ter deficiência visual ou auditiva. “Ainda depois do curso preparatório, decidimos ampliar o perfil e aceitar também um irmão”, relata Adriana.

Em busca de realizar este sonho e, também, poder oferecer uma vida melhor aos seus futuros filhos, Adriana e Fábio enfrentaram três anos de fila de espera. E, no início de 2017, as suas “princesas” chegaram. “Fomos avisados pela juíza de que havia estas duas irmãs para serem adotadas e tivemos poucos dias para decidir, mas ouvimos o coração e fomos em frente com a adoção. Assim que vimos a foto delas, nos apaixonamos”, afirma Adriana.

Manuela e Maria Clara, na época com três e nove anos, se tornaram a prioridade do casal a partir daquele momento. De acordo com Adriana e Fábio, a primeira reação ao ser confirmada a adoção foi êxtase, seguida de uma mistura de sentimentos, e um pouco de insegurança por não saberem ao certo como agir. “Por mais que você invista na preparação antes, você nunca está totalmente preparado quando o momento chega”, admite Adriana.

Quando conheceram mais sobre as meninas e seus dois irmãos, souberam que as crianças tinham uma história complicada até aquele momento. Mas isso não foi nenhum empecilho na decisão e só serviu para aumentar a vontade de dar o máximo de amor às meninas, assim como para Angelita e Jean Brockveld, que adotaram os dois irmãos de Manuela e Maria Clara, Francisco e Samuel. 

A intenção de adotar surgiu na vida do segundo casal há cerca de três anos, em 2016, após tentativas de engravidar. O casal, então, começou os trâmites para poder ter o seu filho e, em 04 de outubro, entrou oficialmente na fila de adoção. Angelita conta que se prepararam para a espera, mas que tudo foi muito rápido e em três meses na fila, já foram chamados. “Nós colocamos um perfil mais aberto, de uma criança de zero a oito anos, mas que aceitávamos um irmão ou uma irmã. Então isso facilitou. Passados três meses, a assistente social de Pomerode avisou que havia quatro irmãos para serem adotados, dois meninos e duas meninas, mas que já havia uma família que adotaria as duas meninas e como éramos os próximos na fila e nos encaixávamos no perfil, fomos chamados”, relata.

Quando receberam a notícia, logo foram informados sobre ser uma adoção casada, ou seja, os quatro irmãos seriam adotados por duas famílias diferentes, que moram na mesma cidade, para que possam manter os vínculos familiares. O casal, então, decidiu que adotaria os meninos, e quando viram a foto dos dois, logo se apaixonaram, também.

“Na época até fomos surpreendidos, pois não esperávamos que seria uma criança tão nova, já que o Samuel só tinha um ano, na época, e nós tínhamos colocado um perfil mais aberto. O Francisco nasceu para nós com cinco anos, já”, revela Angelita.

Os quatro pais contam que a decisão da maneira como seria feita a “separação” dos irmãos foi decidida com base na vontade deles. Os psicólogos do caso conversaram com as crianças, enquanto permaneceram no abrigo, e foi a mais velha, Manuela, que manifestou a vontade de ficar com Maria Clara, sendo feita esta opção.

Angelita relata que o momento mais emocionante foi quando chegaram ao fórum de Lages para buscar as crianças, em 30 de janeiro de 2017. “Logo no fórum o Francisco já me abraçou e me chamou de mãe. Ele ficou poucos minutos conosco e já perguntou quando iríamos para casa. É uma emoção que não sei explicar, quase como se eu tivesse dado à luz”, garante.

Segundo as famílias, a adaptação é um processo contínuo, ao longo dos anos, mas que as crianças já são preparadas psicologicamente antes da adoção. Adriana conta que as meninas já sabem que foram adotadas e que a cada dia são aprendidas coisas novas. “Assim como quando temos um filho biológico, cada fase da vida exige uma adaptação e tentamos resolver tudo à base de muita conversa, dando o exemplo. Sempre deixamos claro para elas que foi o início de uma nova vida, tanto que os nomes foram trocados, para deixar o passado para trás. Cada adaptação de cada criança é única, por isso, às vezes, não é um mar de rosas, temos sempre um desafio por dia, mas é muito gratificante”, conta. Mesmo assim, ela acredita que deveria haver um grupo pós-adoção, porque o compartilhamento de experiências sempre ajuda.

As mães ressaltam que os quatro irmãos tem contato frequente via WhatsApp, para que não deixem de conversar e, sempre que possível, tentam marcar encontros presenciais, por mais que a rotina dificulte um pouco, em alguns momentos.

Ambos os casais aconselham, para quem está pensando em adotar, a ter os pés no chão, e muita certeza. “A espera é algo complicado, às vezes, por isso, o casal deve estar muito certo e persistente no que quer”, ressalta Adriana.

“O casal precisa estar na mesma sintonia e ter um preparo psicológico muito grande, pois a mudança na vida é de 360º, assim como se tivesse um filho biológico. Mas é uma mudança gratificante para quem sonha em ter filhos e formar uma família. O carinho e amor recebido por eles não tem preço”, destaca Angelita. Adriana concorda com a outra mãe.

“Nos esforçamos para dar o melhor a elas e queremos olhar para trás daqui a alguns anos e dizer que valeu a pena. Por mais que existam os desafios, há o pote de ouro no fim da caminhada, que é a felicidade dos filhos”, finaliza.

Questão psicológica é fundamental 

Quando se fala em adoção, é necessário ter em mente que o principal interesse é com o melhor para as crianças. A psicóloga Rejeane Cristina Rahn, pós-graduada em Psicopedagogia, explica que, quando um casal ou uma pessoa solteira pensa em adotar, a primeira coisa que deve ter em mente é que é algo definitivo e que trará mudanças.

“A chegada de uma ou mais crianças muda totalmente o dia a dia e a rotina. E ter ciência, também, que filho é para sempre. Os nossos filhos se tornam o centro das atenções, devem ser nossa prioridade, até porque estão sob os nossos cuidados e a nossa responsabilidade. Por isso, a motivação para a adoção deve ser criar e educar um filho, construir uma história junto com ele”, enaltece.

São diversos casos em que as crianças acabam ficando em abrigos aguardando por uma nova família. Algumas vezes, os pais biológicos entregam a criança para a adoção, mas na maioria dos casos, a criança é retirada da família biológica por motivo de maus tratos, abandono, negligência e violência. A partir desse momento, inicia-se um processo judicial. Devido ao direito da criança estar com a sua família biológica, sinalizado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), são esgotadas todas as possibilidades desse retorno antes da destituição do pátrio poder. Somente depois dessa destituição, as crianças são preparadas para serem encaminhadas para uma nova família, ou seja, em acompanhamento profissional, esse vínculo com a família biológica é rompido definitivamente.

Assim como na situação das famílias que realizaram a adoção casada, conforme a história que contamos, na adoção tardia, de crianças maiores de três anos, os pais precisam compreender e aceitar que não é possível apagar da mente dessas crianças vivências, lembranças e aprendizados que elas tiveram. Mas é possível elaborar, aprender e ensinar com elas em novas situações, mostrar que há diferentes formas de vida.

“Há ‘traumas’ que, com a chegada na nova família, desaparecem naturalmente, desde que as crianças se sintam seguras, amadas e acolhidas como filhos. E há situações que elas só vão se sentir seguras para se abrir com o tempo. Os pais, no curso, aprendem a como deixar as crianças à vontade, para que possam contar com normalidade, e com o tempo, esse passado e suas situações perdem o foco para o presente”, destaca a psicóloga.

Os pais, por sua vez, participam de um curso preparatório, com diversos temas, como motivação, mitos e preconceitos, o desenvolvimento infantil, o investimento afetivo, financeiro e os preparativos para a chegada da criança, características da adoção tardia e como lidar, o pós-adoção como funciona, entre outros. “De fato, quem realiza essa preparação se sente mais seguro na chegada da criança, dificuldades surgirão como em toda maternidade/paternidade, mas serão mais facilmente enfrentadas”, ressalta Rejeane.



Galeria de fotos: 2 fotos
Créditos: Isadora Brehmer/JP Isadora Brehmer/JP
Veja também:









Publicidade

  • 
    eb224b55631b8f403d168a912e1f6fb6.jpg4b580c53dad677f2141dea5ad908465d.jpg